Porque reagimos intensamente a coisas sem importância?

Já nos aconteceu a todos, certo?

Aquela situação insignificante que nos faz sentir uma imensa bola de raiva a aumentar no peito, que sobe pela garganta e que só desaparece quando explodimos com quem está à nossa frente.

E quando dás por ti, já te arrependeste do que disseste, sentes vergonha pela tua reação e culpa por “seres” assim…

Sim, também já me aconteceu (mais vezes do que gostaria de admitir).

E foi precisamente isso que me levou a questionar por que raio tenho reações tão intensas…

O que são reações emocionais intensas?

As reações emocionais intensas acontecem sempre que a tua resposta é maior e mais forte do que a situação exige.

Imagina que alguém ficou com “aquele” lugar de estacionamento depois de não teres encontrado mais nenhum, que um comentário da tua cara metade te magoa mais do que esperavas ou que “aquela” roupa que querias usar tem uma nódoa enorme que não saiu na última lavagem.

Às vezes, uma destas situações simples (e relativamente comuns no nosso dia-a-dia) é suficiente para te estragar o dia e podem levar-te a:

  • Sentir raiva repentina;
  • Isolares-te dos outros;
  • Sentir ansiedade intensa;
  • Chorar sem motivo aparente;
  • Sentir rejeição profunda.

O curioso é que, muitas vezes, é a tua reação não está apenas relacionada com o que aconteceu no momento.

Na verdade, esta reatividade emocional é apenas o teu sistema nervoso a ativar-se para te proteger antes de perceberes o que está a acontecer. Por outras palavras, primeiro sentes e depois pensas.

Estudos científicos demonstram que o cérebro reage em milissegundos, orientando a atenção automaticamente para estímulos emocionais, sobretudo negativos. Além disso, vários estudos demonstraram que estímulos negativos provocam respostas emocionais mais intensas e precoces.

Porquê acontecem estas reações emocionais intensas?

Não é por que tens “mau feitio” ou “problemas com raiva”.

Geralmente, quando a tua reação emocional é desproporcional isso significa que o motivo é mais profundo.

As emoções ajudam-nos a identificar situações de perigo, quando as nossas necessidades emocionais não são correspondidas e a dar sentido ao que vivemos.

Por isso, a tua reação “exagerada” não é algo do momento; é o resultado final de um longo processo emocional.

Na prática, existem vários mecanismos que podem contribuir para reagirmos intensamente a coisas sem importância:

Sensibilidade emocional

Felizmente, não somos todos iguais!

Há pessoas que têm experiências emocionais mais intensas do que outras, e está tudo bem! Geralmente, estas pessoas demonstram uma grande empatia para com os outros e uma autoperceção emocional profunda.

Estas (poderosas) características quando não estão reguladas podem aumentar a sobrecarga emocional.

Por este motivo, é que pessoas mais sensíveis tendem a interpretar pistas neutras como um significado enorme, sentir a crítica como profundamente dolorosa e a reagir emocionalmente de forma rápida e intensa.

Stress e a sobrecarga do sistema nervoso

Imagina que o stress é um balde.

Cada experiência ao longo do dia vai enchendo esse balde.

O que acontece quando o balde já está cheio? Transborda!

É exatamente isto que acontece quando acumulas stress do trabalho, das expetativas dos outros, da tua própria autopressão, do cansaço físico, entre outros.

Cada uma destas experiências acumuladas provoca uma sobrecarga do sistema nervoso, fazendo com que a mais pequena coisa te faça explodir. No fundo, as reações emocionais intensas são fruto de várias coisas em simultâneo e não apenas de um ato isolado.

Em situações de stress crónico, a metáfora do balde torna-se ainda mais evidente.

Sem espaço para processar e recuperar das experiências do dia-a-dia, o cérebro torna-se mais sensível e reativo perante as ameaças que identifica (e que às vezes não correspondem à realidade).

Daqui surge a sensação de responder como se o mundo estivesse contra nós. Na verdade, um sistema nervoso sobrecarregado está apenas a atacar para se defender.

Passado não resolvido

Tudo o que vivemos e aprendemos moldam a nossa personalidade. Esta é a oportunidade do nosso cérebro para aprender a prever potenciais ameaças e ajudar-nos a superar obstáculos.

O problema começa quando essas experiências passadas não são integradas.

É como se ficássemos em suspenso o resto da vida à procura do significado “daquela” experiência que ainda não conseguimos compreender muito bem.

É como se faltasse alguma coisa, mas não conseguíssemos explicar o quê.

Contudo, mesmo que o cérebro não consiga recuperar a memória do evento traumático, o corpo guarda essa memória, mesmo quando não tens consciência dela.

Por isso, quando alguém faz um comentário sem qualquer intenção tu interpretas como uma crítica à tua pessoa, ou quando há um conflito surge o medo de rejeição do de abandono.

Em momentos como estes, a tua reação é rápida, automática e implacável. E enquanto não resolveres o que ficou lá atrás, o mais provável é que continues a reagir de forma intensa. É como se a situação estivesse a ser vivida aqui e agora.

Este é um dos motivos que te pode levar a questionar porque motivo reages assim. A verdade é que a intensidade da tua reação pode estar a refletir a importância emocional do teu passado e não o momento presente.

Quando a intensidade revela algo mais profundo

A intensidade das tuas emoções também pode estar associada a dificuldades emocionais profundas como ansiedade persistente, estados depressivos ou experiências que o teu sistema nervoso ainda não conseguiu integrar.

Nestes casos, as tuas reações emocionais intensas pode ser um sinal de que precisas de mais apoio.

Se sentes que tens uma reação desproporcional frequente, difícil de controlar e que afeta o teu funcionamento, procurar acompanhamento psicológico pode ajudar-te.

O que fazer quando reages desproporcionalmente?

A palavra-chave é regulação emocional!

Esta é uma competência importantíssima que evolui ao longo da nossa vida e que se refere à capacidade de compreender, gerir e responder adequadamente ao que vivemos diariamente.

Se tentares eliminar a raiva que sentes ou fazer de conta que não existe, as tuas reações emocionais intensas só vão aumentar. Em vez disso, é importante identificares os teus gatilhos emocionais e compreender o que as tuas emoções te querem dizer.

A partir do momento que compreendes a origem da tua reação e que dás nome ao que estás a sentir, torna-se muito mais fácil acalmar o sistema nervoso.

A longo prazo, tornas-te melhor a reconhecer os teus gatilhos emocionais, a compreender as tuas emoções e a lidar melhor com situações de stress. Por outras palavras, o teu “balde” levará mais tempo até transbordar.

O que podes fazer na prática…

Criar espaço

Quando sentires que vais explodir, é importante respirares fundo e dar um segundo ou dois antes de responder. Se possível, afasta-te fisicamente e responde quando o teu sistema nervoso estiver mais calmo.

Dá nome ao que sentes

A investigação científica demonstrou que nomear emoções ajuda o sistema nervoso a regular-se ao ativar as partes do cérebro responsáveis pelo controlo cognitivo. Quanto mais clareza no momento de identificar emoções, maior será a tua capacidade de autorregulação.

Reconhecer os gatilhos emocionais

Compreender as situações que te ativam pode ajudar-te a recolher informação importante. Por isso, olha com curiosidade para os teus gatilhos e questiona porque motivo reages intensamente em determinadas situações. Isso irá ajudar-te a responder de forma mais regulada.

Reduzir as fontes de stress

Consegues identificar quais são as tuas fontes de stress, mas não sabes como reduzi-las?

  • Tenta dormir no mesmo horário todos os dias.
  • Define limites saudáveis às exigências no trabalho.
  • Ajusta as tuas expetativas à realidade.

Através destas “pequenas” mudanças, aos poucos, o corpo e a mente aprendem a recuperar o equilíbrio.

Autocompaixão

Quando reagimos intensamente a coisas sem importância, a culpa e a vergonha aparecem de forma automática. E assim, surge uma autocrítica implacável. Ofendemo-nos, mas não nos damos espaço para perceber o que motivou aquela reação.

Se um amigo ou um familiar reagisse exageradamente contigo… qual era a tua reação?

Talvez tentasses perceber o que motivou aquele comportamento.

Talvez até tentasses ajudar aquela pessoa a superar um momento difícil.

Porque não fazes o mesmo contigo?

A investigação em psicologia tem demonstrado que a autocompaixão está associada a uma elevada resiliência emocional e a baixos níveis de ansiedade e depressão.

Aceita que és um ser humano com falhas e virtudes.

Responde ao teu comportamento como se fosse o de outra pessoa.

As tuas emoções estão a falar contigo!

As reações emocionais intensas raramente são um reflexo do momento em que acontecem. Mas não sabendo isto, é possível que já tenhas pensado que tens “mau feitio” e que “sempre foste assim”, como se se tratasse de uma realidade imutável.

A verdade é que as tuas emoções te oferecem informação valiosíssima sobre o teu passado e a tua saúde mental.

Escutares o teu corpo e perceber quando a reação desproporcional acontece vai ajudar-te a encontrar as estratégias mais adequadas a cada momento para que te sintas em equilíbrio.

Talvez o problema não seja a intensidade da tua reação, mas sim o que ela está a tentar mostrar-te.

Referências

https://repositorio.ulisboa.pt/entities/publication/f6cb2553-6708-477a-a553-386d2b34b331
https://repositorio.ulisboa.pt/entities/publication/65cbfa86-e939-4882-bb1a-14ff89a63001

https://sanlab.psych.ucla.edu/wp-content/uploads/sites/31/2015/05/Lieberman_AL-2007.pdf

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1697260021000107?via%3Dihub
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S2212144723001205