Quando crescemos sem que ninguém nos ajude a compreender o que sentimos, pensamos que isso é normal – que é assim em todas as famílias.
De uma forma ou de outra, crescemos a acreditar que é normal decifrar as microexpressões do outro para nos mantermos seguros.
Achamos normal isolarmo-nos, engolirmos o choro e seguir em frente, mantendo a máscara do “está tudo bem”.
Fazemos tudo isto e nem damos por isso. Só nos apercebemos quando já somos adultos e compreendemos que crescemos sozinhos.
A negligência emocional é a realidade de muitas crianças, adolescentes e até mesmo adultos. É, muitas vezes, invisível e difícil de diagnosticar, mas o seu impacto pode ser avassalador.
O que é a negligência emocional?
A negligência emocional é um padrão de relacionamento que acontece quando os pais (ou o principal cuidador) desvalorizam ou ignoram as necessidades emocionais da criança.
A principal diferença entre negligência e abuso emocional é a intenção.
Nos casos de abuso emocional, existe uma intenção real de negar à criança o apoio de que necessita. Por outro lado, na negligência emocional acontece uma ausência de apoio, muitas vezes, inconsciente.
A criança pode ser bem cuidada do ponto de vista físico e médico, mas não receber a mesma qualidade de cuidado emocional.
Este padrão e as suas consequências são muito subtis. É frequente os pais não se aperceberem do impacto do seu comportamento na criança. Em simultâneo, outros adultos cuidadores, como por exemplo professores, podem ter dificuldade em identificar o que está a acontecer, pois os sintomas só são óbvios em casos graves.
Qual a origem da negligência emocional?
Se te revês no que acabaste de ler, é natural que queiras compreender o porquê. Afinal de contas, eras apenas uma criança que estava a agir de acordo com a idade. Merecias ter recebido a atenção de que precisavas.
Aqui, o objetivo é compreender (e não desculpar ou justificar) os comportamentos dos teus pais para contigo. A resposta é mais complexa do que possas imaginar. E raramente tem uma única causa.
Em muitos casos, os pais têm dificuldade em compreender ou gerir as necessidades emocionais da criança. É até possível que eles próprios tenham sido emocionalmente negligenciados. Ao longo da vida crescem focados nas suas próprias necessidades não satisfeitas, ignoram as necessidades dos seus filhos e tornam-se incapazes de colocarem-se no lugar da criança.
A negligência emocional também pode acontecer em contextos de depressão, dependências, perturbações de saúde mental ou ausência de competências parentais saudáveis.
No que respeita a ser pai ou mãe, é muito difícil darmos aos nossos filhos algo que nunca nos ensinaram ou que a própria condição mental não permite.
Talvez por esse motivo, tenhas sofrido negligência emocional.
A culpa nunca foi tua.
Mas, talvez, também não tenha sido dos teus pais.
O que acontece quando crescemos sem espaço para emoções?
Se cresceste num ambiente instável, em que sentias que a tua presença era pouco ou nada importante, é possível que tenhas sofrido negligência emocional.
Aquilo que para ti sempre foi o “normal”, afinal não era. E muito provavelmente, estás a questionar-te se o que estás a ler foi realmente o que viveste.
Não existe uma prova de avaliação médica ou psicológica que permita atestar se alguém foi emocionalmente negligenciado em criança.
No entanto, a literatura científica tem demonstrado vários sintomas de negligência emocional.
Enquanto criança é provável que o teu comportamento alternasse entre extremos de agressão ou de passividade, apresentasses um comportamento demasiado maduro ou infantil para a tua idade, sintomas de depressão ou dificuldade em criar uma vinculação segura.
Agora, enquanto adulto, talvez sejas hipersensível a sinais percebidos de rejeição, tenhas reações desproporcionais a situações de stress, evitas emoções negativas e tens dificuldade em confiar ou em comunicar sentimentos.
Algumas pessoas também apresentam sintomas de depressão e dificuldade em formar e manter novos relacionamentos. Todos estes sintomas podem levar-te ao perfecionismo, a uma baixa autoestima e a uma autocritica severa.
Além disso, pode existir tendência para manter relacionamentos abusivos e instáveis, comportamentos codependentes, dependências, promiscuidade e esforço para agradar aos outros em detrimento das tuas próprias necessidades.
Como ultrapassar um passado de negligência emocional?
Recuperar da negligência emocional da infância exige tempo e autocompaixão.
Nesta fase, é importante reconheceres o que aconteceu, o que sentiste no passado e o que sentes agora. As tuas emoções não são só “coisas” da tua cabeça – as tuas emoções foram e são reais.
Nestas situações, o acompanhamento psicológico é a melhor ferramenta para compreender o teu passado e perceber como isso te afeta agora. Com a ajuda de um psicólogo, conseguirás nomear o que sentes, desenvolver autocompaixão, autoaceitação e aprender a desenvolver limites saudáveis.
Cuidar do teu bem-estar emocional através de mindfulness e meditação, da escrita ou outras atividades de que gostes podem ajudar-te a expressar e processar emoções.
Se quiseres ir um pouco mais longe, deixo-te alguns exercícios práticos que poderás aplicar no teu dia-a-dia:
Ganhar consciência emocional
Aprender a identificar e nomear as tuas emoções irá ajudar-te a estabelecer uma relação mais profunda contigo mesmo e a compreender melhor as tuas necessidades emocionais.
Pergunta a ti próprio o que estás a sentir. Se não conseguires responder, tenta identificar emoções básicas. Esse será o teu ponto de partida para explorares a complexidade das tuas emoções. Se tiveres oportunidade, escreve sobre o que estás a sentir e a pensar. Isso irá ajudar-te a expressar melhor as tuas emoções.
Falar contigo com compaixão
Falares contigo mesmo como se falasses com outra pessoa é uma excelente estratégia para te aceitares como és. Sem julgamentos. Pode ajudar substituir pensamentos negativos por afirmações acolhedoras e repete-as sempre que te desvalorizares.
Reconhecer a tua criança interior
Este é talvez um dos exercícios mais difíceis, mas também um dos mais poderosos: acolher a tua criança interior. O objetivo é reconhecer e aceitar que as feridas do passado continuam abertas.
Imagina que estás a falar com o “eu” da tua infância: a criança que se sentiu ignorada e não amada. Imagina-te agora como és, já adulto, a abraçar essa criança e a dizer-lhe que as suas emoções são válidas e que estás aqui para proteger e ouvir. Certamente será um momento muito emocional para ti. Não sintas culpa ou vergonha. Deixa as emoções fluir.
Seguir em frente…
O acompanhamento psicológico, a meditação ou até mesmo os exercícios que descrevi irão ajudar-te a lidar com as tuas emoções.
No entanto, isso não significa que ficarás imune à dor da ausência de amor e atenção que não recebeste no passado. De tempos a tempos, poderás sentir-te mais assoberbado, mas nessa altura já terás as ferramentas necessárias para lidar com o passado.
Crescer sem espaço para emoções não significa que há algo de errado contigo. Significa apenas que nunca te ensinaram a senti-las.
Referências
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