Porque imaginamos sempre o pior?

Alguém se atrasa para um encontro contigo… Estão chateados comigo e já não querem saber de mim!

O teu chefe diz que precisa de falar contigo… Vão despedir-me!

Sentes dor de cabeça… Tenho um tumor e vou morrer!

Para algumas pessoas, situações perfeitamente banais geram pensamentos negativos constantes que, na maioria das vezes, não correspondem à realidade. Por serem automáticos e muito intensos, este tipo de pensamento transforma-se numa espiral difícil de controlar.

Na psicologia cognitiva, este padrão é conhecido como “catastrofização” e está associado a uma tendência para sobrestimar o perigo e subestimar a capacidade de lidar com ele.

O que é o pensamento catastrófico?

É uma distorção cognitiva em que acreditas no pior de todos os cenários, sem considerares outras hipóteses menos drásticas, mesmo que estejas perante prova do contrário.

Numa situação destas, é possível que sintas este pensamento a ganhar cada vez mais intensidade. O teu pensamento torna-se mais rápido. Um cenário dá lugar ao seguinte. E quando dás por ti, a tua mente está mergulhada numa bola de neve de consequências apocalípticas sem fim à vista.

Neste momento, o corpo começa a preparar-se para lutar ou fugir da “ameaça” que o teu cérebro criou. É provável que sintas o coração acelerado, aumento da transpiração, tensão muscular ou até falta de ar.

Todos estes sintomas têm apenas um objetivo… preparar-te para a ação. O problema é que a realidade não é tão ameaçadora quanto o teu cérebro te fez acreditar.

Em muitos casos, o pensamento catastrófico é um mecanismo de defesa que desenvolveste para te proteger de situações desconfortáveis ou que estão fora do teu controlo.

Porque motivo imaginamos sempre o pior cenário?

Quando pensas no pior cenário, o teu cérebro está a cumprir a sua função: proteger-te do perigo. Por isso, ao antecipar o pior cenário, o teu cérebro está a preparar-te para que possas lidar com o que não conheces.

Crescer numa família instável

Se cresceste num ambiente imprevisível, muito provavelmente passaste a maior parte do teu tempo a antecipar o que iria acontecer. Foi a estratégia que encontraste para sobreviver. Por isso, desenvolveste uma capacidade impressionante para prever todos os cenários possíveis.

Mas quando chegaste à idade adulta, essa competência torna-se um obstáculo e impede-te de viver em tranquilidade, pois é muito fácil para ti saltar automaticamente para cenários catastróficos. Isto é muito comum especialmente em situações de conflito ou rejeição por te relembrarem momentos difíceis do teu passado.

Evitar a desilusão

Há quem tenha pensamentos negativos constantes e nem se aperceba disso. Mas depois há também quem acredite que pensar no pior cenário é a melhor forma de evitar sofrimento. Se fazes isto conscientemente, é provável que acredites que esta estratégia é mais suportável do que enfrentar a desilusão de ter esperança defraudada.

Condição psiquiátrica subjacente

O pensamento catastrófico e a ansiedade têm uma relação muito próxima. Em muitos casos, um alimenta o outro (e vice-versa). Se sofres de ansiedade, é natural procurares previsibilidade. Contudo, quando isso não é possível, o teu cérebro apresenta o pior cenário para te proteger. No entanto, esta tentativa de proteção acaba por gerar ainda mais ansiedade.

Além da ansiedade, o pensamento catastrófico pode também estar relacionado com algumas dificuldades como ansiedade persistente, padrões obsessivos ou experiências traumáticas.

Se viveste uma situação traumática (quer tenha sido apenas algo pontual ou a repetição de situações limite ao longo da tua vida), é possível que o teu sistema nervoso se tenha adaptado a antecipar o perigo. Por isso, tornas-te hipervigilante, sempre à procura do pior cenário para conseguires proteger-te a tempo.

O impacto do pensamento catastrófico

Antecipar todos os cenários é emocional e fisicamente desgastante. É humanamente impossível prever tudo o que vai acontecer, tanto na nossa vida como na das pessoas que nos são mais próximas.

E tal como acontece com outros comportamentos nocivos, o pensamento catastrófico também tem consequências negativas a longo prazo.

Além de palpitações, suores frios, falta de ar ou tensão muscular, se imaginas sempre o pior cenário, é muito provável que tenhas dificuldade em concentrar, adormecer, dormir ou relaxar, problemas digestivos, dores generalizadas, irritabilidade ou tendência para te isolares emocionalmente.

Por outras palavras, é como se o corpo estivesse sempre pronto para uma batalha que raramente chega a acontecer. Compreender este padrão é importante. Mas mais importante ainda é saber como lidar com ele no dia-a-dia.

Como evitar pensar no pior cenário?

Durante muito tempo, imaginar o pior cenário foi a melhor estratégia que encontraste para sobreviver à dor física e emocional. Mas quando esta estratégia te impede de desfrutar das melhores coisas da vida, talvez seja o momento de recuperares o controlo da tua mente.

Nomeia o que está a acontecer

Dar um nome ao que se passa na tua mente, ajuda-te a olhar para os pensamentos catastróficos com alguma distância, como se não fossem realmente “teus”.

Reconhecer a presença destes pensamentos, que ficarão contigo algum tempo e depois vão embora, ajuda-te a reconhecer que afinal não são assim tão intensos nem têm correspondência na realidade.

Concentra-te no aqui e agora

Quando sentires que a tua mente já está a mil à hora, a imaginar cenários desproporcionais ao que realmente pode acontecer, usa o teu corpo para te focares no presente.

Uma estratégia útil é nomeares cinco coisas que vês, quatro coisas que ouves, três coisas que sentes, duas coisas que cheiras e uma coisa que saboreias. Ao usares os cinco sentidos, estás a “obrigar” o teu cérebro a tomar atenção ao que te rodeia nesse momento e não ao que poderá acontecer.

Outra estratégia é controlares a respiração. Inspirar profundamente pelo nariz e exalar devagar pela boca, ajuda o sistema nervoso a regular-se.

Estas sugestões não impedem totalmente o desaparecimento de pensamentos catastróficos. O que acontece é que a sua intensidade e frequência diminuirão significativamente.

Muda a narrativa

Tentares discutir com o teu cérebro é inútil. Só vais sentir mais ansiedade e ele vai sempre gerar mais pensamentos negativos que não tinhas considerado.

Em vez disso, acolhe o que ele te está a dizer: “Ok, estás a imaginar uma catástrofe porque estás a tentar proteger-me. Obrigado, cérebro! Agora podes mostrar mais uma hipótese do que poderá acontecer?”

Desta forma, além de reconheceres o que está a acontecer, estarás a dirigir a tua atenção para cenários menos negativos e a procurar um meio termo aceitável.

Reduz o que te estimula

Se vives num ambiente caótico, tenta perceber o que podes mudar no teu dia-a-dia para reduzir os níveis de stress. Podem ser coisas tão simples como beber menos café, usar menos as redes sociais ou tentar adormecer um pouco mais cedo.

Ao reduzires a sobre estimulação do sistema nervoso, a frequência e intensidade dos teus pensamentos catastróficos também diminuirá.

Procura ajuda

Caso já tenhas tentado todas as estratégias anteriores e não consigas de forma alguma evitar imaginar sempre o pior cenário, talvez seja melhor procurares ajuda especializada. O acompanhamento psicológico é uma excelente ferramenta para compreenderes o que está na base do teu padrão de pensamento.

Referências

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