Halloween… o dia mais assustador do ano.
O dia das decorações fantasmagóricas e dos disfarces macabros, horrendos e sombrios.
O dia em que nos divertimos com o que habitualmente nos assusta.
O Halloween intriga-me…
Por que motivo neste dia procuramos o que habitualmente tentamos repelir?
A origem do Halloween e a sua ligação ao medo
O Halloween, como o conhecemos hoje, é o resultado da transformação e transmissão de crenças pagãs e cristãs de diferentes épocas.
Apesar de existir alguma discussão, vários historiadores indicam o festival celta de Samhain como a origem do Halloween. Os Celtas acreditavam que, nesta época do ano, os mortos vagueavam entre o seu mundo e o dos vivos.
Com o passar dos séculos, o final de outubro ficou marcado pelo regresso dos mortos. Por isso, para afastar os espíritos, as pessoas escureciam o rosto com cinza ou usavam máscaras. Assim, os vivos conseguiam reconhecer e interagir com os falecidos, sem atrair outras forças das trevas.
Com a transmissão deste ritual ao longo de gerações, no século XVI, as pessoas começaram a andar de porta em porta para recolher o “bolo das almas” em troca de orações. Esta prática tinha como objetivo libertar as almas dos seus tormentos para que descansassem em paz e não regressassem ao mundo dos vivos.
O que nos acontece quando sentimos medo?
A psicologia define o medo como uma emoção inata que envolve uma resposta bioquímica e emocional com o objetivo de nos alertar para uma situação de perigo (real ou imaginário).
Pensa na última vez que sentiste medo.
É possível que tenhas sentido o coração a bater mais rápido, a respiração mais acelerada e começado a transpirar como se tivesses corrido uma maratona.
Estas reações físicas têm como objetivo preparar-te para ficar imobilizado, confrontar ou fugir do perigo perante o medo.
No entanto, nem todas as pessoas apresentam os mesmos sintomas. A forma como vivemos o medo também varia de pessoa para pessoa. A personalidade, as vivências e o contexto de cada um influenciam a nossa reação perante uma situação assustadora.
O mais curioso sobre o medo é que partilha os mesmos componentes de ativação fisiológica da excitação. Isto significa que o corpo pode ficar muito ativado tanto numa experiência emocionante como numa experiência desagradável. Como as pessoas reagem de formas diferentes ao medo, a investigação tem procurado compreender o que leva algumas a procurar experiências assustadoras por diversão, enquanto outras preferem evitá-las.
Porque procuramos experiências assustadoras?
Os humanos sempre sentiram curiosidade pelo desconhecido ou por aquilo que não conseguem compreender. Existem várias explicações para este fenómeno. Uma delas é a curiosidade mórbida.
Segundo o psicólogo norte-americano Coltan Scrivner, a curiosidade mórbida trata-se de um mecanismo cognitivo de aprendizagem de ameaças hipotéticas, que tem como objetivo a sobrevivência da espécie humana. Por outras palavras, a curiosidade mórbida permite-nos recolher informação sobre o que acontece numa situação de perigo de morte para que a possamos evitar.
O Halloween, os filmes de terror, os documentários sobre crimes reais e as visitas a casas assombradas são estratégias que encontramos para utilizar a curiosidade mórbida como forma de entretenimento.
O medo num contexto de segurança
Em 2020, um grupo de investigadores da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, monitorizou um grupo de 110 pessoas que visitaram uma casa assombrada.
Os resultados revelaram uma relação em U invertido entre o medo e o prazer em determinados momentos da experiência, ou seja, o prazer tendia a ser maior quando o medo era moderado, diminuindo quando a intensidade era demasiado baixa ou demasiado elevada. Isto sugere que, em determinadas circunstâncias, algum medo pode tornar uma experiência mais emocionante, enquanto um nível excessivo pode torná-la desagradável.
A excitação, a antecipação e a surpresa
Estes são os principais ingredientes de qualquer bom filme de terror.
No “Silêncio dos Inocentes” o que mais nos aterroriza na personagem de Hannibal Lecter não é o que sabemos que ele faz. É o que não sabemos. O nosso cérebro está constantemente à procura de pistas para antecipar o seu comportamento e para nos protegermos, enquanto a narrativa nos deixa sem saber exatamente quando ou como a ameaça se vai concretizar.
A incerteza dá-nos realismo suficiente para o nosso corpo reagir, enquanto estamos confortavelmente sentados no sofá da sala. Por outro lado, o susto e o medo surgem da antecipação de saber que a qualquer momento poderá acontecer algo horrível.
Sabemos que este é um bom filme (além dos 5 Óscares que recebeu), porque no final conseguimos dizê-lo com um sorriso nos lábios. Podemos até rir-nos do salto que demos quando nos assustámos. Quando o cérebro percebe que está em segurança, torna-se possível libertar toda a tensão acumulada.
Porque é que nem toda a gente gosta de experiências assustadoras?
A preferência (ou não) por experiências assustadoras depende muito da personalidade e história individual de cada um. Enquanto algumas pessoas sentem prazer com a descarga de adrenalina, outras sentem um desconforto prolongado e demasiado real.
A investigação em Psicologia tem procurado compreender porque motivo as pessoas amam ou odeiam sentir medo por pura diversão.
Uma revisão da literatura publicada em 2019 identificou algumas tendências: níveis mais baixos de determinadas dimensões da empatia e menor propensão para sentir medo estavam associados a um maior prazer com filmes de terror. No entanto, estas relações não são iguais para todas as pessoas nem para todos os tipos de conteúdo.
Outra tendência identificada foi a de que as pessoas mais empáticas e aquelas que passaram por situações traumáticas tendem a afastar-se de situações potencialmente assustadoras. Além disso, esta revisão de literatura encontrou, em média, uma maior preferência e um maior prazer com filmes de terror entre homens e rapazes, reconhecendo que se trata de tendências observadas nos estudos analisados, e não de diferenças universais.
Apesar da importância dos resultados deste estudo, é importante mencionar que gostar de sentir medo não é sinónimo de gostar do conteúdo que provoca medo. Enquanto uma pessoa pode apreciar a tensão e a surpresa de um filme sem gostar de cenas violentas, outra pode ter curiosidade sobre crimes reais sem gostar de sentir medo.
A perceção de controlo também pode influenciar o modo como sentimos uma experiência assustadora. Se soubermos que, apesar do medo, estamos perante um ambiente controlado e temporalmente limitado, a experiência pode transformar-se em entretenimento e diversão.
Talvez seja essa a particularidade do medo no Halloween: não procuramos necessariamente o perigo, mas a emoção de nos aproximarmos dele sabendo que podemos voltar à segurança. E, para algumas pessoas, essa combinação é precisamente aquilo que torna a experiência divertida.
Referências
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Coltan Scrivner, The psychology of morbid curiosity: Development and initial validation of the morbid curiosity scale, Personality and Individual Differences, Volume 183, 2021, 111139, ISSN 0191-8869, https://doi.org/10.1016/j.paid.2021.111139
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